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DESCOBRIR O QUE NOS PERTENCE

No mundo de relações em que vivemos, normalmente nos referimos às coisas, e mesmo às pessoas, de modo possessivo: meu carro, meu filho, meu corpo....

Aparentemente somos donos do que chamamos de nosso, até que as circunstâncias da vida nos mostrem, nem sempre de forma agradável, realidade bem diferente.

O dinheiro que possuímos é nosso até que passe a outras mãos. Os afetos que consideramos exclusivos, de repente podem escolher outros vínculos, afastando-se de nós. O corpo físico, por maiores sejam os cuidados que devotemos à sua preservação, inexoravelmente envelhece e morre.

Diante dessa realidade, aparentemente desalentadora, podemos nos perguntar se realmente possuímos algo, bem como se é necessário e útil alimentarmos o sentido da posse. É óbvio que não nos referimos às necessidades básicas de todo ser humano, mas à sensação de posse, de segurança, domínio, que alimenta e é alimentada pelo ego, em sua busca insaciável de satisfação e preenchimento.

Quando se considera a existência por uma perspectiva mais profunda, a partir da realidade espiritual, podem-se estabelecer vínculos afetivos sinceros, exercer os papéis sociais necessários, ter um bom trabalho e bens materiais, sem que se permaneça psiquicamente preso a tudo isso.

Uma reflexão sobre o tema sugere que a busca constante de nos sentirmos possuidores do que na realidade não nos pertence causa ansiedade e sofrimento. A possibilidade de perda gera inquietação, insegurança, e pode motivar agressão e violência, na tentativa de se preservar aquilo a que se é apegado.

Qualquer sentimento de posse, quando excessivo, reflete uma percepção limitada da realidade e provoca um aprisionamento psicológico. O ciúme, a inveja, a ambição, a cobiça, a ansiedade, tudo isso reflete o desejo de se ter, ou o receio de se perder algo, com o correspondente sofrimento, demonstrando a fragilidade e a vulnerabilidade humana quando se vive predominantemente na periferia do ego, distraído do ser mais profundo e pleno que se é. Na ânsia de segurança e poder, apegamo-nos até mesmo a coisas abstratas, como conceitos, crenças, ideologias, podendo nos tornar reféns de fanatismo, extremismo e preconceitos diversos, potencialmente perigosos.

Se existe algo que realmente possuímos e que nos é inalienável, pois nos acompanha onde quer que estejamos, é a consciência que somos, com seus atributos e conquistas.

Desafio que se apresenta a todos nós é usufruirmos de tudo o que consideremos bom e útil sem nos apegarmos a nada; apreciarmos o que a vida nos oferece sem o desejo de posse permanente do que quer que seja.

A paz das pessoas sábias provém, dentre outros motivos, de não alimentarem sentimento de posse nem apego em relação a coisas, circunstâncias, pessoas ou ideias. Sabem que possuem o que não lhes pode ser retirado, o que faz parte de sua realidade essencial, bem como o que ofertam à vida, que as plenifica interiormente.

Quando dermos maior valor ao ser do que ao ter, e à nossa autorrealização pelo autoconhecimento, certamente nos libertaremos de muitas ilusões de posse que ainda nos atormentam.

Sabemos que a morte – que a todos espera e da qual ninguém pode se furtar – faz que se deixe, além do corpo, tudo quanto se pretendeu possuir: posição social, títulos, bens e riquezas. Somente quem tem fé, cultiva elevados valores e tem a consciência em paz pode enfrentar essa realidade com serenidade inabalável, mantendo a certeza de que qualquer situação, mesmo a morte, pode representar experiência libertadora.

Auxiliar valioso nesse processo interior, uma sincera busca espiritual favorece o despertar da consciência, ampliando a visão da realidade bem como favorecendo o ser na emancipação de quaisquer amarras psicológicas, ao apresentar uma perspectiva libertadora e plenificadora da existência.

Como ensinam diversos sábios – inclusive os instrutores espíritas desencarnados – aquilo que perdemos, na realidade não nos pertencia, ou não era mais útil nem necessário à nossa evolução; portanto, ocorrências aparentemente desagradáveis podem adquirir novo significado, sob a luz dessa consciência. Afirmam ainda que, em essência, possuímos o que ofertamos, pois a vida é fluxo incessante, no qual quem se desapega se liberta, e quem mais se oferece em serviço aos outros, mais se renova e se enriquece.