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Disciplina

Quando nos propomos corrigir algum traço de personalidade ou falha de caráter, tal medida requer-nos grande empenho, atenção e energia. Além disso, precisamos manter vigilância para não voltarmos ao padrão anterior que buscamos superar.

Os hábitos menos dignos que manifestamos são reflexos de condutas longamente cultivadas no decorrer de várias encarnações. Acabam por fixar-se como matrizes fomentadoras de condutas desarmônicas. Quando, pela tomada de consciência, decidimos mudar, precisamos romper esse estado cristalizado, iniciar e manter novo rumo para nossas vidas.

Romper essa inércia, esse condicionamento dos hábitos requer imensa atenção e energia, para manter o novo padrão estabelecido. A esse ritmo de vigília, cuidado, atenção e perseverança podemos chamar de disciplina. Há vários conceitos e contextos possíveis à disciplina; estamos nos referindo à mudança de hábitos sob perspectiva espiritualista e evolutiva.

Necessitamos harmonizar os vários aspectos de nosso ser: o que pensamos, nossas emoções, o que dizemos e as ações que praticamos. Tudo isso é suscetível de ser educado e a disciplina é valioso instrumento para tal empreendimento.

Reconhecendo a necessidade de autotransformação, o ser impõe-se determinadas regras de conduta para se autoeducar, até que, com empenho sincero ao longo do tempo, tenha alcançado êxito no processo autoiluminativo.

O ser disciplinado é cumpridor dos deveres que lhe cabem a cada momento. Faz o que precisa ser feito, no momento e no lugar adequados. Permanece no seu posto de serviço pelo tempo necessário à desincumbência das tarefas que abraçou.

Somente depois que os hábitos inferiores tiverem sido completamente superados e as virtudes latentes forem plenamente incorporadas é que não haverá mais necessidade de disciplina como a entendemos, como esforço e luta, pois as virtudes serão espontâneas. Nesse nível, a liberdade terá sido plenamente conquistada.

A disciplina está associada a outras virtudes, pois só pode ser exercida juntamente com responsabilidade, paciência e perseverança.

Quando não temos consciência do que devemos mudar ou nos atrasamos demasiadamente em relação aos ritmos evolutivos, a Vida, com seus insondáveis mecanismos pedagógicos e corretivos, se impõe como silenciosa e anônima disciplinadora. São as ocorrências imprevisíveis e inevitáveis que nos induzem a recomeços, cuidados, atenção e vigilância constantes que acabam por renovar condutas e atitudes, o que não teríamos feito espontaneamente. Rebeldia ou negligência ontem - disciplina reparadora hoje.

Uma vida disciplinada é aquela em que existe ritmo, harmonia e um fluxo vital e de atividades, com uso adequado e harmonioso do tempo e sem ansiedade. É um caminhar no ritmo natural da vida.

O excesso de disciplina formal pode ser tão prejudicial quanto a indisciplina, pois o ser excessivamente preso a regras e ajustamentos torna-se rígido, inflexível, embotado, perdendo a leveza e a espontaneidade de uma vida criativa e aberta à renovação e novas descobertas. Precisamos, com autoamor e humildade, respeitar os próprios limites no exercício de qualquer virtude. A indisciplina e a rigidez excessiva podem ser vistos como aspectos opostos da mesma questão: a falta de integração, de integridade, de honestidade emocional e harmonia interior.

Disciplina verdadeira reflete a ordem interna e reflete-se na ordem externa.

A disciplina exterior, pelas exigências, convenções sociais, religiosas, familiares ou tradicionais é um ajustamento a padrões preestabelecidos. Esse tipo de "disciplina", aparente e condicionada, não provém de amadurecimento interno, precisa ser compreendido e então transcendido, criando espaço para o surgimento de algo novo e criador.

Existe a disciplina no sentido convencional, isto é, a obediência ou submissão a um agente com autoridade que dita regras, normas a serem seguidas. Esse agente pode ser externo: pessoa, instituição, religião, ideologia; ou interno, quando, movidos por condicionamento, medo, ambição, competição, procuramos disciplinar a nós mesmos para atender interesses pessoais. Ambos os tipos estão nos domínios do ego, e refletem um caráter superficial e conflituoso. Nos dois casos existe coação, conflito, repressão.

Há uma outra possibilidade de disciplina, que não provém de obediência e submissão a um poder, externo ou do ego, mas que pode ser fruto da compreensão e da sabedoria.

Seres em fase evolutiva mais adiantada, que despertaram para as verdades transcendentes da vida e as assimilaram, vivem em estado natural de equilíbrio e serviço constante, que se manifestam como disciplina. Suas vidas são, embora disciplinadas, interiormente livres, na liberdade do Espírito, que se reflete em ordem, ritmo, harmonia e beleza.

A consciência purificada e espiritualizada não precisa mais ser disciplinada como o entendemos, pois sua própria manifestação revela perfeita harmonia com a Vida Cósmica, com os ritmos da natureza externa e interior, o respeito a si mesmo, a tudo e a todos.

Embora ainda distantes dessa meta sublime, eis um desafio da vida a nos oferecer possibilidades de crescimento e aprimoramento para a conquista da plenitude que a todos nos aguarda.

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