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A Arte de Ouvir

A audição, função fisiológica pela qual o ser percebe os sons e os reconhece através do aparelho auditivo, é compartilhada pelo homem e demais criaturas do reino animal. No ser humano, porém, a percepção auditiva ganha características e significados que o distinguem dos demais seres, seus irmãos menores na escala evolutiva. O homem contextualiza o que percebe e atribui significados mais complexos àquilo que ouve.

As ondas sonoras, após passarem pela decodificação do sistema nervoso central humano, são dotadas de conteúdo e significado peculiares. Os sons, ao serem registrados, são armazenados nos arquivos íntimos do ser, juntamente com seu contexto psíquico e afetivo. Existe uma memória auditiva, pela qual tudo aquilo que foi ouvido fica registrado: os sons, juntamente com seu conteúdo emocional. Quando ouve algo, o homem interpreta-o conforme seus registros mentais e condicionamentos. Assim, a mesma música que para alguém pode ser extremamente agradável e lhe trazer doces recordações, a outro pode produzir evocações dolorosas ou tristes.

Sentido neutro, em sua natureza, a audição, como as demais funções humanas, necessita de educação e aprimoramento. A percepção auditiva é um portal por onde penetram energias e informações de variada natureza, cabendo a cada um o discernimento para filtrar seu conteúdo.

A escolha daquilo que se ouve é tão importante quanto a seleção do alimento que se toma, pois a mensagem veiculada pelo som é também alimento, a nutrir pensamentos, ideais e desejos. Uma simples palavra pode despertar emoções, sugerir ideias, estimular ações e provocar reações.

Além das ondas sonoras hertzianas, o som carrega consigo vibrações sutis com poderoso efeito de influenciação, a depender do conteúdo, bem como da intenção daquele que o emite. Cabe a quem escuta a lucidez de valorizar ou não o que lhe chega aos ouvidos. Portanto, a mente tem poder seletivo sobre aquilo que a alcança através dos sentidos.

Quando se ouve algo degradante ou desarmônico, é melhor que se descarte imediatamente a sugestão infeliz, pelo uso de discernimento e vigilância, sem esquecer da compaixão por aquele que a emitiu. Por outro lado, ao se ouvir mensagem elevada e útil, convém fixar a atenção a fim de lhe assimilar os benefícios.

O ser humano dos tempos atuais, na ansiedade e imediatismo que o caracterizam, tem falado muito e ouvido pouco; “escuta mas não ouve”. Aquele que ouve verdadeiramente coloca-se em postura receptiva, atenta, de real interesse pelo interlocutor. Seu corpo e sua mente estão aquietados, para que haja espaço interior para ouvir. Senão ocorre um tagarelar interno e não escuta verdadeira. Mesmo sem responder ou interromper aquele que está falando, a mente não cessa de julgar, criticar, questionar, argumentar, gerando um campo vibratório de desarmonia, prejudicando a ambos que tentam se comunicar. 

O escritor Rubem Alves, com muita propriedade, disse que cada vez mais pessoas querem fazer cursos de oratória, para falarem mais e melhor, quando precisaríamos de cursos de “escutatória“, a fim de aprendermos a ouvir.

Ao tomar consciência de sua faculdade auditiva e valorizá-la, o homem passa a ter muito mais critério em relação aos sons a que dá ouvidos. O ser que já despertou a consciência e a sensibilidade espiritual aprecia o diálogo puro e edificante, a música harmoniosa e elevada, os sutis sons da natureza: o canto dos pássaros, o sussurro do vento, da chuva, e também aguça a percepção interior, pela qual “ouve” as vozes dos planos sutis e da própria alma.

Aquele que despertou para o amor jamais fecha os ouvidos aos apelos de quem o busca; escuta com atenção e paciência àqueles que lhe falam de seus sofrimentos, dores e aflições, buscando auxiliá-los do melhor modo.

O ato de ouvir amorosamente, seja a quem for, além de demonstrar respeito por quem fala, gera vibrações de acolhimento e favorece a atuação de energias harmonizadoras e curativas. Ouvir não é só um ato passivo e neutro, mas pode ser condição e veículo de fraternidade e comunhão, harmonia e paz.

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