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O dilema da morte

“Desperta ó tu que dormes, levanta-te entre os mortos e o Cristo te iluminará. Portanto, andai prudentemente, não como néscios mas como sábios porquanto os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas sabei entender qual seja a vontade do Senhor.”

(Paulo, Efésio, 5:14)

Dia após dia vemos a humanidade chorar pelos seus mortos. Sejam mortes individuais, sejam coletivas, trágicas ou suaves, todas causam dor e dilaceração, provocando um clima angustiante e melancólico. Munidos do medo da morte, os homens procuram se preservar desse verdugo tenaz e inevitável, através de diversas formas: Aqueles que possuem a fé cega, se apegam a símbolos e crendices, rezas e petitórios, como se a morte selecionasse seus eleitos; outros, buscam ter uma qualidade de vida considerável, através de alimentos selecionados, drogas e terapêuticas específicas, com o fito de preservar e até prolongar a vida, tentando evitar o inevitável. Muitos nem falam a respeito da morte, com medo de atraí-la, como se ela fosse uma entidade, totalmente ignorantes que a morte é apenas uma consequência da vida. Todos morrem! Faz parte da Lei da vida e todos concorrem para essa realidade. O Espiritismo, através do seu corpo doutrinário nos consola e nos orienta a respeito da morte e da vida após a morte, o que é mais importante, nos ensinando que o Espírito não morre, apenas a veste, o corpo. Aí está o dilema das religiões, que munidos de algum conhecimento sobre a hora derradeira, num momento consolam, ensinando que a “alma” sobrevive a morte do corpo, no entanto, em outros momentos, não evitam atos contrastantes com essas realidades, atrelando os vivos aos restos mortais dos que já partiram, como a destituir-lhes o caráter consolador da imortalidade da alma, equivocados quanto a bagagem que possuem. Como resolver o dilema da morte? Ela é boa ou é má? É culpa de Deus ou uma bênção? Diante dessas dúvidas, tentemos entender as palavras de Paulo aos Efésios, à luz do espiritismo, a respeito da morte:

1) O despertar da consciência:

Quando Paulo nos concita a “despertarmos pois que dormimos e nos levantarmos dentre os mortos”, nos ensina o quanto muitos de nós estão longe de conhecer a vida de uma forma profunda e verdadeira. Vivem iludidos quanto à existência, enganados sobre a natureza de Deus, e consequentemente sobre seus desígnios, caminhando como “néscios”, deixando a vida levá-los, numa atitude passiva, quando Jesus nos ensina a ser ativos perante a vida, não reagindo às vicissitudes e benesses, mas agindo de forma a ter algum controle sobre o próprio eu, dentro do livre-arbítrio de cada um. O homem teve a capacidade de viajar rumo às estrelas, vencendo distância inimagináveis, mas ainda não conseguiu viajar para dentro de si mesmo.

Em verdade morremos e desencarnamos. Num primeiro momento, em razão do desgaste do aparelho físico, por um motivo ou outro, provocando a perda do fluido vital, extingue-se a vida física, não por punição de Deus, mas como consequência necessária e inevitável da vida, a morte faz parte da vida. No entanto, quando os laços que nos ligam ao corpo físico se rompem, libertam o espírito, ocorrendo então o desencarne. São fenômenos diferentes e que raramente acontecem concomitantemente. Dependendo do estilo de vida, da filosofia de vida e das crenças pessoais, e do tipo de morte, a desencarnação pode não se processar imediatamente, causando terrível choque e mal estar, podendo este estado se prolongar por dias, meses e anos. O materialismo, o sensualismo, o hedonismo, são responsáveis por atrelar aqueles que optam por esses estilos de vida, ao corpo, como a hera na parede. Daí a assertiva de Paulo que devemos “andar prudentemente, não como néscios, mas como sábios, porquanto os dias são maus”. Os dias são maus pois vivemos num planeta de expiações e provas, inferior, onde seus habitantes, a grande maioria devedores dum passado não muito distante, se acotovelam, cheios de dores e dilacerações, vícios e defeitos, que precisam ser corrigidos e vencidos, para transformarem-se em homens de bem, porém, enquanto isso não acontece, a psicosfera do mundo permanece malsã, tóxica e tudo que deriva do homem tem caracteres egoísticos e pessoais, alheios a necessidade social, causando mal estar e dor. São os “mortos conduzindo mortos”. O tipo de vida que temos determina o tipo de morte que teremos. Morrie Schwartz dizia: “Saiba viver e aprenderá a morrer, saiba morrer e aprenderá a viver...”i . É de uma grandeza esse ensinamento, que aquele que assim vive, desperta, pois que dorme, levanta-se dentre os mortos e se torna apto para que o Mestre Jesus o ilumine, confiando-lhe função mais importante entre os homens. Ainda, num mundo tão atrasado como o nosso a dor tem função relevante, como depuradora e responsável na maioria dos casos por nos ajudar a realizarmos o despertar da consciência. Diz Léon Denis: “O sofrimento é o instrumento de toda elevação, é o único meio de nos arrancarmos à indiferença, à volúpia. É quem esculpe nossa alma, quem lhe dá mais pura forma, beleza mais perfeita.”ii

O Espiritismo, tal como o Cristianismo, realizando sua função revivescente deste último, nos ensina a não temermos a morte, nem tampouco adorá-la, mas aceitá-la, sem traumas, sem dores. Nos dá consciência total da vida, desmistificando fantasias e ilusões. Paulo, no final da mensagem nos orienta a “Não sermos insensatos, mas sabermos entender qual seja a vontade do Senhor”, mas como saber? Conhecendo-O e amando-O. Aprendemos com os Espíritos que Jesus é nosso irmão maior e Governador planetário, um espírito de hierarquia superior, que vela pela Terra, encaminhando-nos ao que há de melhor. O mestre nos ensinou a não temer a morte, prometendo-nos um reino de paz e luz, quando asseverou: “Meu reino não é deste mundo”. Então por que se apegar a ele com tanta veemência? O Espiritismo, explicando o Cristo e sua doutrina, nos dá seu maior ensinamento e maior lição quando nos explica que ninguém morre e que existe uma vida após a morte. E não nos ensina através de suposições, como as religiões ortodoxas, mas através dos próprios espíritos, que sobreviveram à morte do corpo e que do mundo espiritual, vêm dar seu relato, comprovando a imortalidade da alma.

2) O dilema da morte:

Parafraseando Léon Denis quando assevera: “Sob os efeitos desses ensinos, a que se reduz a ideia da morte? Perde todo o caráter assustador. A morte mais não é que uma transformação necessária e uma renovação, pois nada perece realmente.”iii , podemos afirmar para àqueles que perderam seus entes queridos: Eles não morreram! Estão invisíveis, mas não ausentes, como recitou Victor Hugo em um de seus poemas. Abre-se uma nova realidade, e a ideia culturalmente incucada no homem a respeito do nada, perde seu caráter tenebroso, enchendo-nos de esperança. A morte não é o fim, mas o recomeço, pois sendo nossa vida espiritual, a vida real, dela viemos e para ela retornamos, de tempos em tempos, de reencarnação em reencarnação. Daí Paulo, numa outra interpretação do mesmo ensinamento, orientar-nos a “Acordar, pois que estamos dormindo e levantarmos dentre os mortos, para sermos iluminados pelo Cristo”, pois que o mesmo ensinamento cabe a encarnados e a desencarnados.

Os que atravessaram os umbrais da morte, inconscientes, materialistas, descrentes das realidades espirituais ou tendo vivido uma existência sem valores ou grandeza, adentram um mundo onde valores e posses não compram nada e que as máscaras caem e a verdade vem à tona, sentindose como náufragos que tiveram seus barcos destruídos. Sentem-se perdidos e exaustos, sem saberem ao certo se estão vivos ou mortos. A prece e os bons pensamentos auxiliam de forma profunda o seu despertar, mas cabe a ele, o desencarnado, acordar para a realidade do espírito e a levantar-se entre os mortos, pois enquanto o desencarnado considerar-se morto, assim ficará, pois a mente é responsável pela vida do ser, e quando acorda, e vê que é imortal, volta a viver. Os que ficam têm sua cota de responsabilidade para com os que partem antecipadamente, pois não raro, aprisionamnos, através de revolta pela inaceitação da morte, no entanto, quem ama verdadeiramente liberta, para que não sofram nossos mortos.

O homem que venceu o dilema da morte, aceitando-a como ela é e com a sua grandeza, haja vista fazer parte das leis do Universo e de Deus, que sendo justo e bom, tudo que Ele criar, automaticamente será justo e bom, não teme mais a morte, mas teme não ter feito o que devia enquanto esteve vivo, consultando diariamente sua consciência acerca de seus atos. Schwartz dizia: “Todos deveriam ter um pássaro no ombro. Imagine um em seu ombro e a cada dia você diz: É este o dia no qual eu vou morrer? Eu estou pronto? Eu estou levando a vida que eu quero levar? Eu sou a pessoa que eu quero ser? Se nós aceitarmos o fato de que podemos morrer a qualquer momento, nós levaremos nossa vida de modo diferente.”iv

O Espiritismo é um curso de preparo para a morte. Nos ensina a aceitarmos nossa morte e a morte dos que nos rodeiam. Nos dá esperança e fortalece nossa fé, tornando-a racional e raciocinada, cumulando-nos de responsabilidades, promovendo nosso livre-arbítrio e nos alçando para vôos mais altos e mais longos.

Quando a morte se aproximar vamos recebê-la de forma gentil e amorosa, não cumulando nossos entes queridos de peso desnecessário. Aliviemos nossa carga e a deles, aceitando-a boamente, consolando quem fica, e ao invés de dizer um “Adeus”, substituí-lo por um “Até breve”. O Espírita, bem como todo ser espiritualista, deve, via de regra, respeitar os funerais e enterros, mas não se apegar aos sepulcros, como se lá estivesse “nossos mortos”. Lá se encontram suas vestimentas gastas pelo uso, portanto, visitar seu último endereço físico, é o mesmo que visitar uma lixeira aonde foi jogada nossa roupa usada e rasgada, pensando nos visitar. Disse Jesus: “O que vale mais a roupa ou o corpo, o alimento ou a vida?v

É impressionante que até hoje grande parte da humanidade se iluda quanto a isso, celebrando a morte, quando deveriam celebrar a vida.

Deus nosso Pai amantíssimo, não quer nosso mal, quer a nossa felicidade, e é uma injustiça e uma loucura imputar a Ele a culpa de nossas dores e de nossas tristezas. Tudo que temos e o que recebemos, assim o é por acréscimo de misericórdia do Criador, pois como um Pai, tem atitudes que o filho ainda imaturo não entende, mas quando crescer o amará ainda mais, pois aquele ato que não entendemos, é a razão de nosso sucesso. Em nossa ignorância não entendemos, muitos de nós, as diretrizes de Deus, mas quando desenvolvemos nossa “maturidade do senso religioso”, como asseverou Kardec, nos transformamos e passamos a enxergar a vida com outros olhos. Entendemos enfim que colhemos aquilo que plantamos e que a cada um será dado segundo suas obras. Que Deus não tem culpa se desenvolvemos doenças, por não cuidarmos de nossa saúde, que destruímos nosso corpo, por ter vícios e cometer excessos, por sofrermos não raro aquilo que fizemos sofrer e por não sermos perdoados, por não termos perdoado. É nossa responsabilidade e cabe a cada um de nós olhar para dentro de si mesmo e avaliar como anda sua vida. Sendo assim, poderá, com certeza avaliar como será sua morte.

 


i A última grande lição – Mitch Albom; 
ii Depois da morte; 
iii Idem; 
iv A última grande lição – Mitch Albom v Matheus, 6, 25:30
 

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