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A Moral e a Imortalidade

O artigo que segue foi escrito por Cairbar Schutel em maio de 1931 e re-publicado pela RIE na década passada... Já se passaram quase 81 anos, vivemos no Século XXI, a Constituição foi revisada seis vezes, e se não fosse por essas “chamadas”, poderíamos afirmar que o texto nasceu após o autor ter refletido sobre alguma notícia do jornal de hoje.

Para os valores eternos, o tempo não passa. Quando a argumentação é simples e sincera, a verdade prevalece.

Acompanhe conosco as letras do autor, e pensemos em como somar esforços para a construção a que ele nos convidou.

Comentário de Elena Gloria Bauchwitz Emmel

A Moral e a Imortalidade

O século que atravessamos vai ser assinalado nas páginas da história como o iniciador de uma grande era de progresso ativo para a humanidade.

Já se desenham nos nossos horizontes quadros promissores de grande atividade em todos os ramos da ciência e de uma moral verdadeiramente profícua e generalizada, como o grande fator da fraternidade humana.

As lutas que se desencadeiam a todos os momentos, os fenômenos de ordem física que dizimam populações, o estado de confusão em que se acham os povos pela flagrante contradição de sentimentos cívicos e religiosos, a depreciação do caráter, a ausência das nobres paixões, dos sentimentos afetivos, tudo isso constitui a agonia de um mundo de domínio puramente material que não pode assimilar as coisas do espírito para dar lugar a um mundo novo em que a Verdade e a Justiça sejam os princípios fundamentais de uma organização social capaz de resistir a todas as ameaças de queda e dissolução.

Felizmente, por toda a parte, nas mais populosas metrópoles como nos mais esconsos rincões do nosso planeta, a idéia do espírito obsidia as almas, como um clarim de alvorada chamando os homens a postos e anunciando os grandes acontecimentos que vão se desdobrando em todos os países.

É que as mais graves questões que agitam as nações não podem se resolvidas sem o concurso do espírito.

Tirai o espírito do homem, negai-o, deprimi-o, reduzindo-o a uma forma carnal que se agita aos influxos das forças cegas, e esse homem não será mais o homem em que se salientam os sagrados atributos da razão e do coração, o mensageiro das nobres e ativas virtudes que brilham aureolando os caracteres e cintilando – gênios admirados – como estrelas benditas a nos iluminar o alvo da vida.

A sociedade carece de moral e a verdadeira moral não nasce na argila, nem se cria nos charcos. Ela não pode aparecer com as alvas roupagens de que se traja sem que os olhos do espírito sejam abertos para recebê-la.

Nem o materialismo, o niilismo, o negativismo, a dúvida, nem o dogma sectário podem criar a moral e fazê-la crescer nos cérebros e nos corações. As idéias bastardas geradas pelo orgulho humano e pelo falso saber hão de sempre empanar com suas trevas densas as centelhas da verdade que chispam como luzes intermitentes a mostrar ao viandante o roteiro sagrado.

Já o apóstolo dos gentios dizia que — “só o espírito do homem conhece as coisas do espírito”, e a moral é um predicado do espírito, para a aquisição dos superiores dons que auxiliam a nossa ascensão para a felicidade.

Moral sem alma é moral espúria, é moral desalmada.

Todos os problemas da vida, e até a própria vida não se resolvem sem a existência e sobrevivência da alma. Neste X da equação é que está a incógnita do mais alto valor numérico para a resolução não só da Moral com todas as suas prerrogativas, como conseqüentemente da questão social que agita as massas numa luta cruenta.

Por que os estadistas se debatem, em vão, em torno dessas duas questões, e os governos por mais que se esforcem nunca podem resolvê-las, julgando-as mesmo impenetráveis? É justamente porque vão procurar a sua solução onde não a podem encontrar.

O ponto a ferir, a base principal está no “ser ou não ser”. Enquanto este ponto não for resolvido e permanecer a dúvida, a questão se manterá de pé, afrontando governos, capitalistas, operários e trabalhadores, e avassalando a sociedade.

Com efeito, repitamos com S. Paulo a frase lapidar: “Se tudo termina no túmulo, comamos e bebamos que amanhã morreremos”.

O primeiro governo provisório, que concorreu valorosamente para o triunfo da revolução, os generais de terra e mar que movimentaram a força na Capital Federal para o estabelecimento da Moral no nosso país. E esse estudo deve começar da pesquisa e depuseram o último presidente, incluíram, com justa razão no seu programa — “o estudo da questão religiosa e sua resolução”. Inspiradamente andaram esses ilustres dignitários, porque, de fato, é desse estudo desapaixonado e inteligente que resultará uma grande luz e experimentação do princípio anímico. Sem o estudo da alma não pode haver o estudo de religião, pois este é uma conseqüência daquele. Só por uma pesquisa metódica, acurada, obedecendo o método experimental, adotado pelas ciências, estudo que não se restringe a um partido, a uma seita, se poderá chegar à conclusão positiva da existência do ser e sua sobrevivência à morte corporal. Sobre esta base inamovível, pode-se dizer, é que se deve levantar o edifício da moral tão ansiosamente esperado por todas as almas nobres, por todos os espíritos sequiosos da Verdade e da Justiça.

Positivemos melhor e mais claramente o nosso modo de ver: selecionando Deus e a alma das nossas cogitações, absolutamente não resolveremos o problema moral e conseqüentemente a questão social, finalmente não chegaremos a uma conclusão definitiva para o estabelecimento da Moral entre os povos.

Note-se que esta afirmação não sanciona de modo algum as pretensões do sectarismo religioso, açambarcador do domínio espiritual, assim como não autoriza o consórcio, embora meramente virtual, da Igreja com o Estado.

O Estado deve ser leigo, imparcial, mantendo, portanto, a letra da sua Constituição irrepreensivelmente, para dar liberdade de ação a todos os pesquisadores a exercerem o livre-exame sem opressões diretas ou indiretas. Os seus representantes devem evitar, máxime enquanto revestirem cargos representativos, governativos, demonstrações religiosas que aparentam preferências por esta ou aquela seita, com exclusão de outras.

Todos sabem muito bem as influências sugestivas que os maiores têm sobre os menores e na sociedade, mormente numa época como a que atravessamos de depressão do caráter.

Podemos perfeitamente resolver esses pontos capitais sem a união híbrida da Igreja com o Estado. Basta que os poderes competentes se mantenham inflexíveis nos dispositivos da Constituição e se tornem guardas avançadas da liberdade de consciência, apoiando todos os pesquisadores apaixonados e reprimindo a impostura e a mistificação religiosa, esteja ela onde estiver e com quem estiver.

A disciplina constitucional é Justiça e esta não dá privilégios, nem faz exclusões, para a busca da Verdade e combate à falsidade.

Estamos sinceramente convictos que o século XX, que passou entre convulsões intestinas das nações, as suas bodas de prata, não festejará as bodas de ouro, sem ver resolvido o magno problema que tão de perto afeta a vida dos povos.

Acentuar, portanto, esse trabalho de raro valor em torno do alevantado ideal é obra de inestimável colaboração, é preciosa contribuição para o erguimento desse majestoso monumento que, sem dúvida, abrigará a humanidade toda.

Não vacilemos, pois, nem regateemos esforços para a construção dos princípios basilares da Nova Fé; cimentemo-lo com o nosso sacrifício e cada qual concorra com a insignificante, mas valiosa pedrinha para o alcance de tão almejado desiderato.

A moral é irmã gêmea da imortalidade, sem a vida desta, aquela não poderá absolutamente prevalecer.

Postado em Matão, por Cairbar Schutel em maio de 1931 e publicado pela RIE-Revista Internacional de Espiritismo, de Maio de 2008